Depois que o Conselho de Ética do Senado iniciou o processo que apura quebra de decoro e pede cassação do mandato do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO), os parlamentares que usaram a tribuna para falar do caso o fizeram para narrar constrangimento ou decepção com as atitudes do senador que, até então, era tido como um defensor da moral e da ética no Congresso. Aqueles que, no início das denúncias, usaram a palavra em Plenário para defender, ou mesmo pedir tempo para que Demóstenes pudesse explicar a questão, narraram, depois, arrependimento por tal defesa.
Nos corredores do Congresso, o que mais se ouviu foram parlamentares dizendo terem sido enganados pelo senador goiano. A palavra repetida por todos era "decepção". E foi para esses pares que, na tarde desta segunda-feira, o senador Demóstenes apelou e pediu perdão. "Eu peço perdão; eu peço desculpas", repetiu, por 48 vezes, citando 44 senadores nominalmente.
No Plenário, onde estavam presentes apenas quatro parlamentares, Demóstenes afirmou estar seguro de que vai conseguir provar sua inocência e acusou a imprensa de promover um julgamento antecipado. "Fora da precipitação empreendida pela mídia nesses meses de sofrimento, provarei que minha honradez e retidão são dignas daquele apoio recebido num momento tão difícil e em virtude do qual sou eternamente grato", disse, garantido que a confiança recebida por ele no passado "não foi em vão".
O discurso de hoje faz parte da tática de defesa diante do trâmite final do processo que poderá cassar o mandato do senador, acusado de ter mantido sociedade com o bicheiro Carlinhos Cachoeira em negócios ilegais. Um outro discurso, também em Plenário, está marcado para esta terça-feira. "Há celeridade em jogar para os leões o corpo esquálido que há 125 dias sangra nas manchetes", disse Demóstenes em tom dramático, clamando por absolvição no julgamento que deverá enfrentar no Congresso na próxima semana.
Usando de apelo emocional, Demóstenes disse ser vítima de julgamento prévio e repetiu que nada fez para merecer o que chamou de "a desconstrução da minha honra". " (...) Admiti que fui amigo de Cachoeira, que era amigo e mantinha conversas frequentes, mas nunca tive negócios legais ou ilegais com ele", afirmou o senador.
Carlinhos Cachoeira
Acusado de comandar a exploração do jogo ilegal em Goiás, Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, foi preso na Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, em 29 de fevereiro de 2012, oito anos após a divulgação de um vídeo em que Waldomiro Diniz, assessor do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, lhe pedia propina. O escândalo culminou na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bingos e na revelação do suposto esquema de pagamento de parlamentares que ficou conhecido como mensalão.
Acusado de comandar a exploração do jogo ilegal em Goiás, Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, foi preso na Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, em 29 de fevereiro de 2012, oito anos após a divulgação de um vídeo em que Waldomiro Diniz, assessor do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, lhe pedia propina. O escândalo culminou na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bingos e na revelação do suposto esquema de pagamento de parlamentares que ficou conhecido como mensalão.
Escutas telefônicas realizadas durante a investigação da PF apontaram contatos entre Cachoeira e o senador democrata Demóstenes Torres (GO). Ele reagiu dizendo que a violação do seu sigilo telefônico não havia obedecido a critérios legais.
Nos dias seguintes, reportagens dos jornais Folha de S.Paulo e O Globo afirmaram, respectivamente, que o grupo de Cachoeira forneceu telefones antigrampos para políticos, entre eles Demóstenes, e que o senador pediu ao empresário que lhe emprestasse R$ 3 mil em despesas com táxi-aéreo. Na conversa, o democrata ainda vazou informações sobre reuniões reservadas que manteve com representantes dos três Poderes.
Pressionado, Demóstenes pediu afastamento da liderança do DEM no Senado em 27 de março. No dia seguinte, o Psol representou contra o parlamentar no Conselho de Ética e, um dia depois, em 29 de março, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski autorizou a quebra de seu sigilo bancário.
O presidente do DEM, senador José Agripino Maia (RN), anunciou em 2 de abril que o partido havia decidido abrir um processo que poderia resultar na expulsão de Demóstenes, que, no dia seguinte, pediu a desfiliação da legenda, encerrando a investigação interna. Mas as denúncias só aumentaram e começaram a atingir outros políticos, agentes públicos e empresas.
Após a publicação de suspeitas de que a construtora Delta, maior recebedora de recursos do governo federal nos últimos três anos, faça parte do esquema de Cachoeira, a empresa anunciou a demissão de um funcionário e uma auditoria. O vazamento das conversas apontam encontros de Cachoeira também com os governadores Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal, e Marconi Perillo (PSDB), de Goiás. Em 19 de abril, o Congresso criou a CPI mista do Cachoeira.
No dia 25 de junho, o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar do Senado aprovou a cassação de Demóstenes. Em decisão unânime, por 15 votos a zero, o colegiado aprovou o relatório do senador Humberto Costa (PT-PE), que recomendou a perda do mandato do senador. O parecer do Conselho de Ética deverá ser examinado pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) e, se aprovado, passará por nova votação no Senado, que poderá definir a cassação definitiva de Demóstenes.
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